A Bíblia ordena à mulher calar ou profetizar?

O Jornal Batista

Reflexão sobre textos bíblicos relacionados à participação da mulher na igreja, analisando o contexto histórico de Corinto e Éfeso e defendendo que a mulher pode profetizar e proclamar as verdades da Palavra de Deus.

A Bíblia ordena à mulher calar ou profetizar?

Há pelo menos dois textos controversos na Bíblia, que trazem esse questionamento quanto à mulher: I Coríntios 14.34, 35 e I Timóteo 2.11,12. Antes de entrar nos dois textos em questão quero deixar evidente que o termo profetizar (prophēteúō) significa a capacidade de enunciar mensagens inspiradas. Assim, trato a expressão profetizar como a capacidade dada por Deus de anunciar Suas verdades reveladas nas Escrituras.

Pois bem, vamos aos textos. Em I Coríntios 14.34, 35, o apóstolo Paulo diz para as mulheres “permanecerem em silêncio nas igrejas, pois não lhes é permitido falar e se quiserem aprender algo, devem perguntar aos seus maridos em casa”.

A primeira coisa a se considerar é o contexto em que o apóstolo escreve a carta. A cidade de Corinto tinha o templo da deusa Afrodite, que contava com sacerdotisas cultuais que se prostituíam, “previam o futuro” e entravam em transe falando compulsivamente. Esse contexto de proeminência feminina possivelmente contribuía negativamente na conduta das mulheres pertencentes a essa cultura que se convertiam ao Cristianismo, mas ainda estavam no processo de aprendizado e amadurecimento.

Daí, a ordem enfática para as mulheres daquela Igreja, que sob influência cultural não tinham sabedoria de como se portar nas assembleias. É interessante que, voltando um pouco às páginas da Bíblia, em I Coríntios 11.5, vemos a recomendação do próprio apóstolo de como as mulheres deveriam orar ou profetizar, o que nesta ocasião não irei discorrer para não fugir do assunto em foco, mas recomendação essa que também é específica àquela cultura. O fato é que a mulher pode, sim, profetizar, isto é, pregar a palavra de Deus, pois seria contraditório no capítulo 11 as recomendações de como profetizar, enquanto no capítulo 14 a ordem é silenciar, se não considerarmos o contexto histórico.

Na mesma linha podemos compreender I Timóteo 2.11,12, que diz para a mulher aprender em silêncio e sem permissão para o ensino. Havia em Éfeso o templo da deusa Diana, que também contava com sacerdotisas, à semelhança do que acontecia em Corinto. O culto a Diana incluía prostituição e aquela cultura pervertida de mulheres paraloeiras precisa ser inibida entre as mulheres gentílicas convertidas ao cristianismo. Ainda chamo a atenção para o termo “silêncio” utilizado no texto em questão (hēsychía) que significa guardar-se num estado silencioso, também significa estado de quietude e calma, livre de perturbação. Então, podemos entender o termo silêncio no texto no seu sentido absoluto.

Se fosse o caso de silenciar a mulher, não poderíamos ter a expressão “profetisa” (prophētis), mulher que proclama mensagens inspiradas em nome de Deus, pregadora. No Antigo Testamento temos Débora (Juízes 4.4), Miriã (Êxodo 15.20), a esposa de Isaías (Isaías 8.3), Hulda (II Reis 22.12-20). No Novo Testamento temos Ana (Lucas 2.36), as filhas de Filipe (Atos 21.9), mulheres que hão de profetizar (Atos 2.18). Sem falar em outras mulheres que tiveram proeminência e com certeza foram profetisas, ou seja, proclamadoras da mensagem do Evangelho, como Priscila (Atos 18.24-26), Evódia e Síntique (Filipenses 4.1-3), Febe (Romanos 16.1), Trifena, Trifosa e Pérsida (Romanos 16.12), Joana, Susana, Maria Madalena e outras (Lucas 8.2,3), Lídia (Atos 16.13,14).

Ah! Como é bom saber que como mulher não estou fadada a calar, mas a profetizar as verdades da Palavra de Deus.